PERIÓDICO DE DIVULGAÇÃO DO ESPIRITISMO PRÁTICO
Carta de um filho único, morto na idade de dois anos, à sua mãe
01 / JANEIRO / 2025
Carta de um filho único, morto na idade de dois anos, à condessa de..., sua mãe.

 

    "A dor que vós sentis é uma diminuição da minha felicidade. O único sentimento de que eu era capaz em meu estado de infância, era uma ternura por vós, que não passava de puro instinto e simpatia; mas hoje meu coração é capaz de reconhecimento e afeição filial. Sentimentos que me fazem compartilhar vossas amarguras. 

   "Desde o momento em que minha alma foi libertada de sua incômoda prisão, descobri-me um ser ativo e racional: a ideia das gloriosas prerrogativas de minha existência causou-me inicialmente manifestações de alegria que não saberia exprimir. Minhas primeiras reflexões tiveram por objeto minha querida Benfeitora. Pois já antes de minha morte eu vos conhecia sob essa terna relação. Espantado de vos ver chorar por uma pequena massa quase incapaz de respirar, que eu acabava de deixar, e da qual estava encantado de me sentir desembaraçado, parecia-me que vós estáveis zangada com minha feliz libertação. Eu encontrava uma justa proporção, tanta agilidade e um esplendor tão brilhante no novo veículo que acompanhava meu Espírito, que não podia espantar-me suficientemente que vos afligísseis pela feliz troca que eu fizera. Eu conhecia tão pouco a diferença entre os corpos materiais e imateriais que imaginava ser tão visível para vós quanto vós o éreis para mim. Vossas lágrimas, no entanto, tocavam-me vivamente, mas eu não sabia porquê. Talvez minha compaixão viesse da beleza de vosso rosto, que era o mais belo de todos os que eu vira até então, se excluir o do meu Anjo Guardião. Talvez também o interesse que eu tinha por vossas lágrimas viesse da semelhança que vós tínheis com essas agradáveis imagens, que frequentemente me alegravam no sono, e me ocasionavam amáveis sonhos. Ignorava que fôsseis minha mãe; somente me relembrava que tínheis sido meu único refúgio em minhas pequenas necessidades, das quais me restavam apenas ideias muito confusas. 

   Eu vos deixei com pesar. Vossa aflição estava no ápice quando precisei seguir meu Guia todo radiante de luz, que me conduziu a um lugar, morada da tranquilidade e da alegria. Ali encontrei milhares de Espíritos bem-aventurados de minha ordem, que me ensinaram a história desse mundo em que eu nascera. Conservo por esses habitantes uma benevolência particular. Mas é preciso confessar, a conduta deles causa-me espanto. Como nunca discerni o bem do mal nem experimentei os motivos que dirigem os homens, suas alegrias e seus desgostos me pareciam estranhos e inexplicáveis.

   "Desde meu falecimento fiz várias visitas aos mortais. A primeira foi um efeito de minha terna curiosidade a vosso respeito. Queria saber se estáveis enfim satisfeita pela maneira pela qual o Céu dispusera de mim numa idade tão tenra. Mas qual não foi minha surpresa ao ver que, após vários meses, a dor ocupava ainda vosso espírito, e envenenava os prazeres de vossa vida. Tudo isso me deu vontade de conhecer minha  própria história. Não compreendia por que era tão lamentado, eu que fizera no mundo apenas uma estadia tão curta e de tão pouca consequência. De que importância poderia ter sido minha vida para o público, ou para minha família?

   "Vosso Anjo Guardião, ao qual pedi para me esclarecer esse mistério respondeu-me que, a respeito do público, era muito incerto se eu teria sido uma benção ou uma maldição; mas que eu era toda a esperança de uma ilustre família, e o único herdeiro de um grande bem e de um título distinto. Mostrando-me brasões, disse-me que ali estava a marca de minha dignidade. Um magnífico castelo que se oferecia à nossa vista, os jardins, os prados, o parque e os bosques que o cercavam deviam ser meu domínio. 

   "Eis, repliquei, belas Terras e que convêm muito bem a esses quadrúpedes que vejo pastar nessas verdes pradarias. Mas que uso podem ter prados e bosques para aquele que tem uma alma imortal? E quanto ao título, que felicidade, que satisfação, uma simples sílaba, um inútil som podem ocasionar? Tomei os brasões por um brinquedo; e se eu não soubesse que a zombaria era indigna de um Anjo, teria acreditado que ele os mencionara apenas para ridicularizar os homens. Que encantos se podem encontrar nessas coisas? Ainda que eu possuísse o Globo terrestre inteiro, que utilidade poderia eu tirar desses elementos grosseiros, as mais vis das criaturas? Nem a água, nem o fogo, nem a terra, nem o ar poderiam servir-me para o que quer que fosse. Como criaturas sensatas fazem consistir suas riquezas nas montanhas e nos vales, nas árvores e nos rios, nas minas e nas cavernas que estão debaixo de seus pés? Esses objetos merecem mais a sua estima do que as nuvens que se movem sobre suas cabeças? Não invejo o que os homens possuem. Antes, estou feliz de não ter vivido suficiente tempo para formar um juízo tão falso, e me apegar a bens tão desprezíveis. A perda que sofri toca-me tão pouco que, supondo que o Príncipe das trevas exigisse essa herança, eu não creria dever disputar com ele suas pretensões: obtendo-a ele parecer-me-ia bastante punido pelo ódio que tem por vós e por mim.

   "Sim, Senhora, o estado em que me encontro está tão acima daquele dos maiores monarcas, que toda a grandeza mundana é apenas uma vã aparência, se comparada à realidade das honras de que gozo atualmente apenas pela constituição de minha natureza. Os reis da Terra excitam a compaixão, enquanto elevado à glória celeste e triunfante eu gozo de uma vida imortal na qual se acham prazeres infinitos.

   "Ó se tivésseis podido conceber minha felicidade! Ao invés de ter-me levado ao túmulo com uma triste pompa, teríeis celebrado meu funeral com cantos e festins. Não sou mais aquela pobre criatura sem conhecimento que acariciáveis, e à qual sorríeis: minha existência e minha razão de repente obtiveram o grau de perfeição e de grandeza a que eu estava destinado. Se deixei um espaço estreito de terra foi para percorrer os astros e passear no firmamento estrelado; em vez do ar terrestre que eu respirava, respiro o ar puro do Paraíso. Não me resta mais nenhuma dúvida sobre minha duração eterna: dependo apenas do Todo-poderoso, que amo, que adoro como a fonte de minha existência e de minha felicidade.

   "Perdoai-me, Senhora, se digo-vos que agora sois vós, em relação a mim, a criança: superior a vós, devolvo-vos aqueles ternos olhares que vós me prodigalizáveis outrora."1

 

NARCISSE

 

Eis o que o Sr. Allan Kardec escreveu em sua Revista sobre essa obra:

 

"Nada é mais instrutivo e ao mesmo tempo mais concludente em favor do Espiritismo do que ver as ideias sobre as quais ele se apoia, professadas por pessoas estranhas à Doutrina, e antes mesmo de seu aparecimento. Um dos nossos correspondentes de Antuérpia, que já nos transmitiu preciosos documentos a tal respeito, manda-nos o seguinte extrato de uma obra inglesa, cuja tradução, feita da 5ª edição, foi publicada em Amsterdã em 1753. Talvez jamais os princípios do Espiritismo tenham sido formulados com tanta precisão. É intitulado: A amizade após a morte, contendo as cartas dos mortos aos vivos. Pela Senhora Rowe."2

 

__________

1 Do livro L'Amitié après la mort, contenant les letres des morts aux vivants, et les lettres morales et amusantes. (Amizade após a morte, contendo as cartas dos mortos aos vivos.) Traduzido do francês pela equipe do Geak / Ipeak. 

2 Revista Espírita, novembro de 1868 - O Espiritismo em toda parte - A amizade após a morte, pela Sra. Rowe

 

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