Mais uma vez temos a alegria de receber conversas entre os familiares que se amam e cujo amor a morte não extinguiu. Reproduzimos, tal qual nos foi enviado de Portugal, esse diálogo que é mais uma prova de que nossos parentes de além-túmulo não se negam a atender ao chamado dos afetos que ainda estão no corpo.
Promessas e sacrifícios
"Numa das habituais conversas que tivemos com a minha avó, Sra. I. (desencarnada em 2000), no nosso grupo familiar, foi abordada a questão das promessas a São Bento, para percebermos o que ela, enquanto católica praticante quando viva, pensa atualmente sobre o assunto. Estas práticas eram habituais na sua época e na localidade onde vivia.
Deixo, de seguida, as perguntas iniciais que foram colocadas na referida reunião, bem como as respostas dadas pela Sra. I. pela mediunidade escrevente, no dia 31 de maio de 2024."
P. - Como vês, agora, as promessas que eram feitas a São Bento?
R. - Há aspetos que, quando no corpo, não via com completude. O afeto a São Bento, já aí estava, nessa época. No entanto, a intenção dessas promessas eram mais tentarmos passar pelos obstáculos sem aprendermos com o que eles nos traziam como ensinamentos. Eram uma espécie de troca infantil: dou-te isto, para me dares aquilo; dá-me isto e eu dou-te aquilo. Os santos eram tratados como comerciantes1, e isso era alimentado pela religião, apesar de ser uma atitude bem próxima da dos vendilhões do templo2 a que Jesus se opôs. Agora, pensando sobre isso, não me parece uma atitude sensata, nem uma fé santa, com a confiança pura em Deus.
P. - O que te parecem os sacrifícios que algumas pessoas praticavam, como andarem de joelhos à volta da igreja?
R. - O homem castiga o seu corpo, muitas vezes, por não saber ou querer trabalhar o Espírito. Podemos sacrificar o nosso corpo para produzirmos um bem maior, mas não como uma troca com o Céu. Por exemplo, deixar de dormir para dedicar-se aos cuidados de um doente, é um sacrifício louvável. O hábito de prometer para que outros cumprissem a promessa era ainda pior, por ser pleno egoísmo.
"Os sofrimentos naturais são os únicos que elevam, porque vêm de Deus. Os sofrimentos voluntários de nada servem, quando não concorrem para o bem de outrem. Supões que se adiantam no caminho do progresso os que abreviam a vida, mediante rigores sobre-humanos, como o fazem os bonzos, os faquires e alguns fanáticos de muitas seitas? Por que de preferência não trabalham pelo bem de seus semelhantes? Vistam o indigente; consolem o que chora; trabalhem pelo que está enfermo; sofram privações para alívio dos infelizes e então suas vidas serão úteis e agradáveis a Deus. Sofrer alguém voluntariamente, apenas por seu próprio bem, é egoísmo; sofrer pelos outros é caridade: tais os preceitos do Cristo."3
"Contra os perigos e os sofrimentos é que o instinto de conservação foi dado a todos os seres. Fustigai o vosso espírito e não o vosso corpo, mortificai o vosso orgulho, sufocai o vosso egoísmo, que se assemelha a uma serpente a vos roer o coração, e fareis muito mais pelo vosso adiantamento do que infligindo-vos rigores que já não são deste século."4
Para além deste assunto, como os Guias nos têm recomendado trabalhar a virtude da paciência, na mesma reunião, foram preparadas outras duas questões que abarcam essa temática e cuja utilidade poderá ser estendida através desta partilha, já que a própria Sra. I. nos deixou esta indicação numa reunião: "Os meus erros e aprendizagens poderão inspirar quem passa por erros semelhantes, a fazerem diferente, e as minhas aprendizagens partilhadas poderão levar consolo a outros."
P. - Quando disseste, numa comunicação, "Tenho andado a aprender a relativizar os problemas e a saber lidar com eles, sem me abater ou rebelar", seria isso aprender a ter paciência?
R. - Podemos considerar que a paciência está envolvida, mas é também aprender a ter compaixão e serenidade. A calma permitir-me-á passar pelas situações sem reagir imediatamente, sem reflexão ou ponderação.
P. - Queres dizer o que tens aprendido sobre essa importante virtude, a paciência, para que possamos também refletir sobre ela?
R. - Vi, muitas vezes, os momentos em que me irritei. Numas vezes, não havia nada do que eu pensava que me estava a ferir, ou seja, a minha interpretação imediata estava errada. Noutras situações, mesmo havendo provocações externas, devia ter ficado calada e amadurecido as ideias, mantido o silêncio do justo ou o silêncio da ponderação. Só depois da ponderação é que devia ter exposto e falado sobre o que não me agradava. A esposa deve dizer ao esposo o que não é do seu agrado, mas também não deve agredi-lo, nem verbalmente com palavras irritadas. Devemos aprender a ser mansos, sem deixarmos de ser firmes naquilo em que acreditamos. Os fortes são mansos e os fracos são agressivos.
"Sede pacientes. A paciência também é uma caridade e deveis praticar a lei de caridade ensinada pelo Cristo, enviado de Deus. A caridade que consiste na esmola dada aos pobres é a mais fácil de todas. Outra há, porém, muito mais penosa e, conseguintemente, muito mais meritória: a de perdoarmos aos que Deus colocou em nosso caminho para serem instrumentos do nosso sofrer e para nos porem à prova a paciência." (Um Espírito amigo - Havre, 1862)5
No final da presente reunião, deixou-nos ainda o seguinte conselho: "Vocês, façam o que eu não fiz: pratiquem o silêncio do justo".
Helena
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1 Por exemplo, aquele que queria ser curado de um problema numa perna, comprava uma perna de cera. Depois, essa perna de cera voltava a ser revendida vezes sem conta. Acreditavam que bastava comprar esse objeto para que a cura se desse.
2 O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XXVI - Dai gratuitamente o que gratuitamente recebestes - Mercadores expulsos do templo
3 O Livro dos Espíritos, item 726
4 O Livro dos Espíritos, item 727
5 O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. IX - Bem-aventurados os que são dóceis e pacíficos - Instruções dos Espíritos - A paciência. Veja-se também: O sacrifício mais agradável a Deus.

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